quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Chegada.

Suas faces, avermelhadas e pintadas...
Seus olhos expressavam um misto de admiração, surpresa e medo; alguns, inclusive, tentavam mascarar este medo agindo de forma agressiva, ameaçando-nos com seus arco e flechas e lanças, mas eu percebia o medo. Podia sentir o cheiro do medo pairando por entre seus corpos nus, pintados e sem pêlos.

Atravessamos um longo corredor com pontas afiadas mirando-nos as faces, mas não pensamos em dar meia volta por um instante sequer. Aquela terra era fascinante e não desistiríamos nem que os nativos trouxessem o próprio demônio para nos ameaçar.
Permitirei-me retroceder (brevemente) alguns anos na história, somente para que não fiquem dúvidas ou brechas, e para que alguém que porventura venha a ler estas linhas, entenda o porquê de tamanho fascínio.

O ano era 1492 (não me recordo ao certo o mês, mas creio que estávamos no início, ou em meados de agosto), quando os Espanhóis, inspirados em Colombo iniciaram uma viagem de circunavegação e desembarcaram naquilo que hoje chamamos de América Central por volta de dois meses depois. Portugal não demorou muito a entrar na disputa e, em 1494 foi assinado o "Tratado de Tordesilhas"...
Tratado este, que dividia o mundo entre as duas coroas. Tratado este, aprovado pelo Papa Júlio II. Veja você... A igreja nem sempre me foi um completo empecilho, embora tenha me perseguido várias e várias vezes antes dos ocorridos que agora narro (deixarei as lembranças das tais perseguições para outra ocasião pois não quero perder o foco).
Em 1498 Vasco da Gama chegou às Índias e em 1500... Bom... 1500 é o ano em que estávamos quando da "recepção" inicialmente narrada. Darei continuidade a ela agora.

Cabral seguia logo à minha frente, e me seguiam algumas dezenas de homens. Alguns dos nossos homens também exalavam aquele cheiro que aprendi a identificar desde muito cedo, e logo tratei de tentar acalmá-los para que nossa chegada não acabasse em um banho de sangue, afinal, precisávamos daqueles nativos. Éramos estranhos em uma Terra estranha, perigosa e fascinante. Os homens que arriscaram se aventurar mata adentro sozinhos, nos primeiros dias, infelizmente voltaram carregados pelos nativos, com seus corpos cheios de feridas, suas faces irreconhecíveis e alguns com um braço ou uma perna a menos, provavelmente vítimas de alguma fera no meio da mata, ou de algum nativo com um gosto um tanto singular (mais à frente, descobrimos que haviam tribos e tribos destes).

Os portugueses, naquele período, não se interessaram tanto na exploração daquela terra, embora ela fascinasse de imediato quem nela pousasse os olhos, e eles soubessem que haviam muitas riquezas a descobrir por ali. O que mais interessava, tanto a portugueses quanto a espanhóis na época, era o comércio com as Índias. Eles se foram mas eu fiquei...

Embora enviassem algumas expedições com o intúito de reconhecer o território e suas potencialidades econômicas, houve um período de abandono da região. Este período é chamado pelos historiadores de hoje, de Pré-Colonial... Eu costumo chamá-lo de período da Paz.
Embora uma das tais expedições de reconhecimento tenha encontrado uma árvore de grande valor comercial e tenham começado sua extração em 1502, foi um período menos conturbado, pois as tentativas de utilização de escravos negros foram um ato falho, afinal, não havia como trazer dezenas ou centenas de escravos negros a uma terra desconhecida e sem uma estrutura apropriada, e esperar que eles fossem dóceis, passivos e não fugissem, então, quem extraiu a madeira foram os próprios nativos.

Era fascinante ver o brilho em seus olhos, frente a um pequeno espelho ou a coisas tidas como simples na metrópole. Os portugueses literalmente fizeram fortuna com espelhinhos e outros tantos badulaques inúteis. O escambo foi uma mão na roda... Digo... No Pau-Brasil.
Acabaram com as árvores em menos de 50 anos (o homem e sua estupidez, desde sempre).

Mas voltando ao tal período da Paz; os portugueses pouco ficavam por Terra. Os Índios cortavam e reservavam a madeira, que era enviada para a Europa. Aproveitei este período, de aproximadamente 30 anos para conhecer o lugar e seus mistérios. Aprendi a me comunicar com os índios, que me ensinavam coisas importantes acerca de plantas e animais, e não tinha receio de me embrenhar sozinho mata adentro. Acredito que a esta altura já não precise explicar o motivo.

Período interessante que infelizmente acabou pois Portugal teve de encaminhar expedições guarda-costas ao Brasil, para combater piratas franceses que contrabandeavam a madeira. Para bem da verdade, nunca esperei que os franceses demorassem tanto para questionar o tratado que dividia o mundo entre duas coroas, mas, ainda assim tentei evitar aquilo. Hoje não nego que dilacerei uma jugular ou outra, e que invadiu-me certa esperança de um período maior de paz, mas os franceses são insistentes...
A partir daí iniciou-se um período turbulento... Mas por enquanto fico por aqui.

Um comentário:

M. Costa disse...

Tive que reaprender a linkar coisas também. Foi uma longa jornada de montagem de quebra-cabeça. rs
Os franceses são mesmo uns tumultuosos, ahn! Haja jugular!
Tens acompanhado uma história com muitos percalços, Sr. Louis. Admito que muito me interessa, já que faz parte da minha, da sua e da história de muitos que a carregam na cabeça e no coração, com sangue e sem. 8-| Voe e leve a tua e a nossa história... :-)
Bjokas!